Sua Conexão Não Está Funcionando
Aquele sobre uma música, um filme e mais umas coisas
A cena é: dois homens estão num cinema. Um deles é visivelmente mais velho que o outro, mas só vemos suas costas, pois estamos também de frente para a tela. Estão lado a lado, mas há uma espécie de distanciamento entre eles que seria apropriado a dois estranhos. É quando um braço fantasmagórico se ergue do homem mais velho em direção à nuca do jovem e a acaricia num gesto amoroso. Logo vemos o fantasma do homem se dirigir ao outro, abraçando e envolvendo-o carinhosamente. A cena é devastadora pois é evidente que o que vemos é uma projeção do desejo do homem mais velho, que acaba não se concretizando nem naquele momento, nem em outros.
Quando ouvi falar sobre o lançamento do filme Queer, apenas achei curiosa a escolha do ator Daniel Craig para viver um personagem homossexual, haja vista que a primeira referência que tenho dele é da sua atuação na franquia mais hetero de que tenho notícia, os filmes do espião 007. Mas logo fiquei sabendo de que o longa era inspirado na obra homônima do escritor William Burroughs e passei a ter uma necessidade quase física de assistí-lo. Pensava nele diariamente. Até que pude vê-lo e, sinceramente, ainda não sei o que penso ou sinto sobre isso.
A primeira vez que li algo de Burroughs foi quando eu era adolescente (há muito, MUITO tempo atrás). Na época eu era uma espécie de exploradora de bibliotecas e o título, Almoço Nu, me causou uma coceira na curiosidade, principalmente quando, ainda na biblioteca, li que a intenção do título era de proporcionar um momento em que a metafórica refeição era servida sem firulas, sem rodeios, sem fantasias. Tudo o que seria consumido estava absolutamente desnudo na ponta do garfo, quer gostemos disso ou não.
Desde então eu desenvolvi uma relação (se é que posso usar esse termo) de familiaridade com Bill (sim, eu gosto de chamá-lo pelo apelido). Li todas as traduções que eu pude encontrar (o que corresponde a uma pequena fração da sua obra) e mesmo sabendo que ele como ser humano era uma figura muitas vezes, hmmmm…questionável em suas atitudes, não consigo deixar de pensar nele com um tanto de… carinho. Afinal, o afeto funciona muitas vezes dessa forma engraçada. Mesmo que saibamos dos defeitos e das faltas de alguém, continuamos amando e sim, eu estou me justificando aqui.
Assistir ao filme me deixou desconfortável em vários momentos (a ponto de fechar os olhos em duas ou três cenas), muito por saber que o personagem principal, William Lee, é uma espécie de alter ego do próprio Burroughs. O que faz com que a escolha do ator seja absolutamente perfeita, porque a caracterização de Daniel Craig fez com que ele ficasse absurdamente parecido com as imagens que temos de Burroughs na sua vida adulta. Enquanto eu assistia, tinha vontade real de entrar pela tela e sacudir Lee dizendo “Para de se humilhar desse jeito! Só para, por favor!” Mas acho que estou me adiantando um pouco, principalmente para quem não assistiu o filme. Uma breve descrição:
Queer é a história do personagem William Lee, em sua estada na Cidade do México, seu vício em heroína, seu consumo excessivo de álcool, suas relações na pequena comunidade gay local e, por último e mais importante, seu caso obsessivo pelo jovem Eugene Allerton, um jovem recém saído do serviço militar e que é retratado de forma tão ambígua que muitas vezes parece mesmo etérea. Podemos vê-lo em alguns momentos demonstrando algum interesse, mesmo que bastante sutil, na bicha (não olhe pra mim assim, é a melhor tradução que eu conheço para a palavra queer) de meia idade que é William Lee, mas na maior parte do tempo o que vemos é um imenso fastio e constrangimento pelo fato de ser alvo de um afeto tão espalhafatoso, tão ruidoso, tão necessitado de atenção. Lee se apega a Allerton como um sobrevivente de um naufrágio se apega a um patinho de borracha. Ele sabe que não será suficiente para a sua salvação, mas quem sabe dá pra ficar com a cabeça fora do oceano de solidão um pouquinho mais, só um pouquinho, sim?
É nessa tentativa desesperada que Lee sugere pagar para que Allerton o acompanhe numa jornada em direção a América do Sul (sim, ele basicamente comprou uma companhia), na busca de ter uma experiência com a bebida ayahuasca, que, segundo Lee, teria poder sobre o desenvolvimento da telepatia. E é nisso que reside a dificuldade de Lee: ele quer se comunicar, ele quer se conectar com Allerton, mas as palavras parecem ser muito mais uma barreira para os sentimentos do que um veículo para eles. Em determinada altura do filme, vemos Lee, lamentavelmente bêbado, abordar Allerton em uma festa (numa casa onde se reunia a comunidade queer da cidade) e dizer, num tom que mirou no galanteio e acertou no desespero: Eu quero conversar com você. Sem falar.”
Allerton não é necessariamente uma pessoa ruim. Em alguns momentos dá mesmo sinais de que se importa com Lee, mas seu estilo é mais comedido. Não se sabe exatamente se ele é gay, embora ele frequente os ambientes notadamente da comunidade, às vezes suas dúvidas o impedem de se aproximar de Lee com mais naturalidade. Já Lee demonstra ser um poço de insegurança, algumas vezes invadindo o espaço de Allerton num tipo de superproteção que soa angustiante. Lee quer a proximidade, quer se fundir com o rapaz numa conexão total. Allerton gosta da proximidade, mas o medo de se afogar na intensidade de Lee não dá espaço para muito mais.
A trilha sonora, que tem a mão do excelente Trent Reznor (que também assina a trilha de Challengers, do mesmo diretor) é lindamente conduzida. O filme ainda tem três músicas do Nirvana (o que faz lembrar que Burroughs teve alguma relação com Kurt, anos antes da partida deste último) All Apologies, cantada por Sinéad O’Connor numa versão de partir o coração, a excessivamente conhecida Come As You Are, e a relativamente desconhecida Marigold, que toca como música de fundo numa cena em um restaurante e fez com que a cena se tornasse ainda mais especialmente dolorosa para mim.
Mas o engraçado é que (frase normalmente sucedida por uma observação que não possui graça nenhuma), depois de um tempo que eu assisti ao filme, passei a fazer uma correlação entre ele e a canção Nobody, da cantora Mitski. Uma música com uma harmonia alegrinha e melodia altamente assobiável, mas cuja letra fala de uma solidão profunda, quase além da possibilidade de conserto ou remédio, exatamente como vemos no caso de Lee. Já a ouvi várias vezes, mas apenas recentemente percebi um detalhe, que pode ser apenas uma viagem da minha cabeça, mas que para mim faz bastante sentido, então eu acredito. O refrão consiste apenas na palavra “nobody” sendo repetida, mas em alguns momentos ela parece brincar com a similaridade sonora da palavra e a possibilidade da expressão “no body”, ou seja, um “não corpo”. O que me faz voltar ao filme, quando Lee diz algo como “Eu não sou queer, só estou descorporificado”.
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Intermission:
A frase exata, dita por Lee no meio e por Allerton quase no final do filme é “I’m not queer, I’m just disembodied”. A tradução mais “comum” para a palavra “disembodied” é “desencarnado”, mas eu creio que perca o sentido, já que em português usamos essa palavra com o sentido de “morto”, o que não acho que seja o ponto aqui. Então usei “descorporificado”, uma palavra que não tenho certeza se existe realmente. Mas se não houver, agora passa a existir por motivos de eu quero.
End of Intermission
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A canção começa com a fala sobre estar tão sozinha que sente a necessidade de abrir a janela para ouvir o “som das pessoas”. A sequência em que ouvimos Come As You Are é uma longa cena em câmera lenta, onde Lee desfila pela fachada de vários estabelecimentos que poderiam ser classificados como “impróprios para pessoas de família’, ao mesmo tempo em que não está exatamente conectado a nada ou a ninguém, como um simples observador. Um passante.
E tudo isso começou quando, numa divagação à toa, me peguei pensando numa frase que foi bastante difundida lá pelos idos de 2000-e-Orkut-bombando: Eu te amo não é bom dia. E no quanto eu me sinto desconfortável com ela, afinal uma declaração dessas denota um certo investimento de energia pessoal que às vezes pode parecer demais para algumas pessoas. Mas eu creio mesmo que o afeto, o carinho, o amor e suas demonstrações não são como títulos do tesouro direto ou coisa que o valha. Coisas que “se valorizam” e “aumentam” conforme o tempo em que ficam guardadas em local seco, afastado da luz e de odores fortes. Amor é um ser vivo, delicado. Se guardado, definha e morre. É quase isso que acontece com Allerton depois da experiência com ayahuasca. Depois de vislumbrar a extensão do que sentia por Lee, preferiu sufocar e literalmente sair correndo do que sentia.
Mitski diz na música que já se modificou algumas vezes e mesmo assim não encontrou ninguém que a quisesse. Lee luta entre seu interior, estranho e inadequado, e a necessidade de atender a expectativas externas, que muitas vezes são só vagamente vislumbradas. Se debatendo para se entender enquanto homem gay tendo crescido numa ambiente ideológico extremamente homofóbico. Também ele se esforça para entrar em uma forma da qual pouco se sabe de sua extensão. A conexão é virtualmente impossível.
Sou uma pessoa cronicamente online por opção e por vício. Tenho estado por várias caixas de comentários, observando o quanto cresce a tendência da pós-ironia e do desrespeito como forma de ser “elegante” ou “inteligente” o que eu acho uma bobagem sem limites. Sou tão gentil quanto posso, sempre que posso, porque tento ter em mente o ser humano que está por trás da outra tela. E sei que isso está se tornando cada vez mais difícil, porque muitos se tornaram decididamente desagradáveis e adotaram isso como um estilo de vida, mas eu não sou assim. E se um deles me chamar de otária, eu digo que sou otária com todo o direito de sê-lo. Ergueria um Manifesto Pela Otariedade, se tivesse energia para isso.
Se eu gostei do seu trampo, vou dizê-lo. Se acho seu cabelo lindo, vou falar sim, qual é o problema? Se o que você fala é legal e eu acho necessário, vou republicar e tentar expandir a sua voz, porque é isso que eu faço com aqueles que eu admiro. E que, agindo assim, quando a Indesejada das Gentes chegar às pessoas que amo, não me encontrará com elogios, palavras de carinho e encorajamento atravessadas na garganta, mortas e se deteriorando.
Dito isso, eu amo todos e cada um de vocês que estão aqui e chegaram até aqui, nesse texto gigantesco. Você tem um lugar especial dentro do meu coração…
Beijas!

Não sei como, mas depois de tanto spoiler deu vontade de ver esse filme