No começo do caminho...
Aquele em que se arranha a superfície de uma questão profunda
Sou uma grande consumidora de conteúdo no youtube. De fato, em boa parte do tempo que eu estou acordada (e algum tempo em que estou dormindo) eu estou assistindo/ouvindo vídeos da plataforma, a maior parte deles de alguma forma ligados a criatividade e a processos criativos. E, talvez pela quantidade de conteúdo que eu consumi nesses últimos tempos, acho que existe uma forma de resumi-los a uma ideia central. Quero dizer, se fosse possível colocar todo esses vídeos em uma panela comicamente grande, levá-los ao fogo para reduzi-los ao mínimo possível (a expressão inglesa boil it down), o resultado seria algo parecido com: vai lá e faz. E então eu me fiz um questionamento: se a mensagem final é tão simples, porque tanta gente precisa falar dela, das mais variadas formas possíveis?
Aparentemente uma boa explicação para isso venha do fato de que nem sempre aquilo que é mais simples é o mais fácil.
Num dos vários projetos literários que eu iniciei e deixei pelo caminho, o capítulo inicial falava de como no início de qualquer jornada o mais difícil não é dar o primeiro passo. O primeiro passo ainda é confortável, porque um pé ainda está na posição inicial. A qualquer sinal de perigo é possível retornar ao estado inicial sem muito esforço. Mas o segundo passo, sim, seria um ato de fé. Depois que os dois pés deixam o ponto de partida, nada mais será como antes. Nem mesmo o retorno ao ponto inicial é possível, porque esse retorno seria uma espécie de falso retorno. Não seria o mesmo lugar, mesmo se voltássemos exatamente para o mesmo lugar. É a questão do homem e do rio (novo rio, novo homem, acho que você conhece essa aqui, não é mesmo?)
A questão aqui é que um trabalho criativo/artístico envolve um fator que está completamente fora do alcance de quem produz uma obra: a recepção do Outro (sim, esse Outro maiúsculo e metafórico, tão próximo e tão desconhecido). E, por mais que se saiba que essa é uma dimensão que está realmente fora do nosso controle, existem formas de fazer com que ela seja a melhor possível. Editar, revisar, cortar, melhorar... tudo o que é possível fazer para que o que é dito esteja colocado da forma mais clara e compreensível. Mas deve-se atentar ao fato de que mesmo assim, mesmo com todo o cuidado e carinho, ainda não se tem o controle sobre o que será recebido daquilo que oferecemos. De tanto polir, pode ser que a ideia central desapareça no pó. De tanto reter para aprimoramentos, pode ser que a obra acabe apodrecendo nas suas mãos.
Não faz muito tempo que eu vi, por aqui mesmo, uma frase que me fez pensar por muito, muito tempo. Ainda faz, até hoje. Não me recordo da autoria (me desculpem), mas o conteúdo era mais ou menos assim: “é mais fácil editar uma página de um texto ruim do que editar uma página em branco”. Mesmo que a pessoa que a produziu atualmente pode estar suando terrivelmente de tão perfeitamente coberta de razão, ainda assim há de se considerar que o medo é um obstáculo que não pode ser ignorado. O medo é aquele gatinho filhote que você pegou na feira de adoção no shopping perto da sua casa e que agora, às 3:99 da manhã, está miando na sala como se estivesse sendo morto de forma lenta e dolorosa. E se você levantar para tentar fazer com que seus vizinhos não pensem que você está fazendo uma espécie amadora de ritual satânico envolvendo um sacrifício animal no meio da madrugada, ele irá arranhar sua perna, morder seu pé além do limite do tolerável até que você o coloque na cama, onde não conseguirá mais dormir, já que o pestinha decidiu passar o resto da noite caçando um bicho invisível debaixo da coberta.
(sim, isso foi muito específico, mas juro que não é baseado em fatos reais)
O ponto é: quanto mais se dá atenção ao medo, mas ele te paralisa e te impede de concretizar algo, seja lá o que for. Acho que aí é que nos encontramos com nossos colegas youtubers e o licor de vai lá e faz. Porque no fundo é exatamente isso. Sem começar, não há começo. E eu, como legítima iniciante, sou cada vez mais contrária à ideia de “sem paciência com quem tá começando”... seja nas artes visuais, na música ou na escrita: se tá começando, tem minha total atenção.
Acredito que essa distinta plataforma seja o ambiente ideal para se levantar esse tipo de questionamento. Estamos aqui entre grandes autores mas também entre milhares de pessoas que, como eu e muito provavelmente como você, encontraram no substack um cantinho com cadeiras na calçada para fofocar com as comadres. Cada texto que eu encontro é uma grata surpresa, porque me dá um vislumbre de vidas e pontos de vista aos quais eu jamais teria acesso se não existisse mais uma rede social cujo fundador estivesse envolvido de forma tão duvidosa com a defesa da tão famosa (e já parcialmente esvaziada de sentido) liberdade de expressão... ah, a vida no capitalismo tardio.
Aqui eu tomo por exemplo a minha própria trajetória, a ser construída agora, bem diante dos vossos olhos. Eu alimento a ideia de escrever há mais tempo do que eu consigo lembrar (já que a minha memória é péssima), mas por um motivo ou outro eu acaba deixando para mais tarde. Seja pelas limitações tecnológicas, de tempo, espaço, inspiração ou simplesmente cansaço. Fui postergando qualquer movimentação criativa até chegar ao ponto de que ou eu faria algo ou eu simplesmente explodiria. Talvez não metaforicamente. Fato é que, depois de rodar e afofar o lugar como um gato amassando pãozinho numa almofada, me acomodei aqui nessa distinta plataforma e, para meu mais completo espanto, chegamos à marca de 50 subscritores, o que é pelo menos umas dez vezes mais do que eu esperava ter por aqui, principalmente com tão pouco tempo de estrada.
Essa é, na minha opinião, uma das maiores belezas desse nosso cantinho: a possibilidade de se colocar o pezinho na água da criação literária e ir experimentando a temperatura, até se ter a coragem/insensatez de dar um mergulho. Alguns diriam que esse movimento apenas retarda uma entrega completa, mas meu jovem... eu tenho medo de qualquer porção de água seja ela qual for, se tem alguém que sabe de covardia aqui, esse cara sou eu.
O Tarot tem 22 cartas chamadas de Arcanos Maiores. Objetivamente são 23 cartas, mas a primeira delas é também conhecida como A Carta Sem Número, também conhecida como O Louco. Essa carta significa, entre outras coisas, a alegria do início da jornada. O homem ali apenas caminha, dependendo da representação pode estar inclusive margeando um abismo, olhando as belezas que se vêem no céu. Um cachorrinho tenta lhe chamar a atenção para a terra, mas sem muito sucesso. A estrada é longa e as possibilidades são quase infinitas.
Arriscar, começar, se jogar... tudo isso é relativamente fácil de aconselhar para alguém que já deu o segundo passo. Mas acho que ter em mente o quão doloroso esse passo poder ser é importante para todos nós, seja para que não nos cobremos além dos limites do suportável (vamos lá, você sabe até onde dá pra esticar a corda), seja para que tenhamos um olhar mais terno para aqueles que estão alguns passos atrás de nós.
Ou com a perna suspensa no espaço, olhando o vazio.




TE AMO GISA!
Amei! Exatamente o que venho sentindo nos últimos tempos em relação ao criar. Obrigada pelo texto!