Neon Genesis Evangelion
Aquele que veio depois de um longo e tenebroso inverno com muitas, mas muitas palavras mesmo
O ano era... bem, não vou fingir que me lembro. Sei que estávamos em algum lugar ligeiramente anterior ao pânico do bug do milênio. Nesse ano vagamente identificado, eu e minha família estávamos descobrindo as maravilhas de ter um objeto tecnológico chamado videocassete. Provavelmente você se lembra do que é um videocassete, essa distinta plataforma não possui muitos usuários tão jovens, mas se não for familiar pode ir pesquisar. Vai lá, rapidinho. Eu espero aqui.
Entre lidar com prazos de empréstimos das locadoras (outra coisa boa de pesquisar) e as opções quase infinitas e ao mesmo tempo quase todas ligeiramente insatisfatórias (não me espanta que é mais ou menos daqui que surgiu a Netflix), meu irmão mais velho apareceu com algo completamente novo. Uma fita gravada por outra pessoa, um programa de canal a cabo. Na vinheta, dizia que era uma maratona da Semana Santa, aquela época em que somos lembrados de uma data que significa um monte de coisas diferentes para culturas diferentes e que no final das contas acaba sendo só mais um feriado prolongado e um mecanismo pra indústria justificar a superprodução de bens completamente supérfluos e com isso arrancar mais dinheiro da gen...
ops, acho que me passei um pouquinho aqui
Era um anime. Seu nome era Evangelion. Neon Genesis Evangelion.
Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos. Animes eram objetos apenas vagamente conhecidos, otaku era uma palavra que não existia no horizonte próximo. E, justamente num feriado prolongado, eu coloquei aquela fita, aquela fita gravada por um amigo do meu irmão, de um canal de tv a cabo.
E uma semente foi plantada.
Não, não tinham todos os episódios, nem estavam exatamente na ordem. Na verdade, eu não me lembro de muita coisa do que eu assisti na época. Lembro da sensação, de estar assistindo algo que eu nunca tinha visto nada igual. Nem remotamente parecido. Era estranho, era perturbador, era... sei lá.
Os anos se passaram e eu passei, o tempo todo, com essa ervilha debaixo do meu colchão. Toda vez que alguém mencionava o quanto Evangelion era um anime maravilhoso, estupendo, genial, eu assentia vagamente, concordando sem poder dizer muito mais. Afinal de contas, tudo o que eu tinha da série eram as impressões de uma pré-adolescente acerca de alguns episódios que eu nem conseguia lembrar direito. Dei voltas e voltas ao redor da série, sem coragem de embarcar, mas também sem pressa de deixar a ideia ir embora. Coloquei na minha lista “Assistir mais tarde” e deixei a coisa marinar.
Como diz o ditado “antes tarde do que mais tarde”.
Explico minha relutância: é fato conhecido que Hideaki Anno, criador, diretor e principal roteirista da série, estava passando por momentos difíceis em sua vida e deixou bastante de si próprio vazar para dentro da obra. E, nessa quadra miserável da história em que nos encontramos, assistir uma obra que reflita a depressão de alguém não parece ser um esporte sadio nem de todo isento de riscos.
Mesmo assim eu mergulhei. E depois de assistir a uma quantidade pouco saudável de vídeos explicando a série, os simbolismos, as particularidades dos personagens, voltei com uma ou duas coisas pra dizer. Obviamente o texto estará eivado dos tão temidos spoilers, mas francamente nada do que eu disser estragará a possível experiência com a obra. Aliás, acho que conhecer boa parte da lore por trás da história me ajudou a entender alguns movimentos que não são necessariamente explicados na série por motivos de nem são tão importantes assim. Vamos ao início.
A série começa com o personagem Shinji Ikari chegando a uma cidade sitiada pela ameaça de uma criatura enorme. As cenas se alternam entre o ponto de vista de Shinji, como uma pessoa comum tentando se encontrar nas ruas desertas de uma cidade desconhecida e o que parece ser uma base militar, onde nos é informado que o monstro se trata de um anjo. Eu só consigo lembrar das inúmeras charges que vi sobre os anjos “biblicamente acurados” e sorrir.
Essa alternância garante que tenhamos a maior parte das informações que precisamos nesse início de série, já que no centro de comando temos personagens dando relatórios verbais sobre o avanço do ataque e, sob o ponto de vista de Shinji, nós somos introduzidos a esse cenário que, assim como ele, não conhecemos. Misato Katsuragi é a nossa anfitriã. Oficial da organização da qual já conhecemos a torre de comando, ela nos introduz nas informações básicas sobre a NERV, organização onde o pai do Shinji trabalha. Também descobrimos que a relação entre pai e filho não é das melhores.
E é sob o olhar inquisitivo do pai que, aos 14 minutos do primeiro episódio, tendo acabado de adentrar aquele universo misterioso, estado frente a frente com o anjo monstruoso e lutado internamente entre o medo e a vontade de encontrar o pai, Shinji recebe pela primeira vez a ordem que iria se tornar meme: Entra no robô, Shinji.
E, como uma pessoa absolutamente normal e sadia, Shinji dá a única resposta possível diante daquelas circunstâncias. Não.
O fato é que ele acaba sim entrando no robô, claro, senão a gente não teria uma continuação da história. Mas faz isso apenas porque a alternativa a sua participação naquela batalha seria a pobre e escalavrada Rei Ayanami, que nem se aguenta de pé, tanto que é introduzida na história numa maca. As palavras do sr. Ikari, pai de Shinji, ao ordenar que a chamassem para a batalha que seu filho se recusava a lutar são sintomáticas da posição que Rei ocupa naquela organização: “Ela ainda não morreu”.
Eu poderia passar muito mais tempo, analisando cada detalhe das muitas cenas do anime. Acho mesmo que a produção foi feita com muito carinho em seus pequenos detalhes, mas para isso existem dezenas, senão centenas de vídeos espalhados pela internet. Muita gente já quis explicar o sentido de Evangelion, como se procurassem o sentido da vida em uma sequência de imagens animadas. Fico com a teimosia de Anno ao se recusar terminantemente a explicar o que quer que seja. Evangelion é uma obra como um quebra cabeça: você pode seguir as instruções da caixa e obter exatamente a mesma imagem que todos os outros conseguem quando o montam, ou pode seguir seus instintos e combinar as peças como achar melhor. Obviamente existe a possibilidade de se estar absolutamente errado, mas, assim como o sentido da vida, acho que esse é um risco que sempre pode se correr.
Eis que o meu ponto de vista aqui pretende abordar: que, ao invés de procurar qual personagem seria uma espécie de alter ego do criador, eu vou apresentar os personagens principais como sendo um aspecto diferente de uma pessoa lidando com um processo depressivo. Pode até parecer que alguns personagens se contradigam, mas acredite em mim, no final vai fazer algum sentido. Eu acho. Ou espero.
Shinji Ikari é o desejo de conexão. E como o desejo de conexão de uma pessoa deprimida, ele é vacilante, inseguro. Shinji faz qualquer coisa que é mandado, desde que ganhe a aprovação de alguém para fazê-lo. E continua a fazê-lo, apenas porque não o mandaram parar. Shinji tenta se conectar com as poucas pessoas ao seu redor, mas o fato de que elas são pessoas, tão complexas e cheias de ambiguidades como qualquer um, faz com que as tentativas dele sejam apenas isso: tentativas. O que fazer então, se quando nos aproximamos das pessoas acabamos nos ferindo, mas se nos afastamos ficamos sem abrigo? Essa pergunta permeia toda a série, mas existe um episódio em especial chamado “O Dilema do Porco Espinho”, onde somos apresentados à história popularizada por Schopenhauer, sobre porcos espinhos, uma noite de inverno e muitas agulhadas involuntárias (ou não). Shinji quer ter companhia, mas quer ficar só. Quer fazer parte, mas não sabe como.
Rei Ayanami é o processo de despersonalização. Sua presença nas cenas é tão etérea que muitas vezes a chamar de “presença” parece forte demais. Muito do que acontece a ela parece ser experimentado em terceira pessoa, um senso de distanciamento de seu corpo e de suas emoções. Vemos várias situações em que Rei se questiona sobre o que está acontecendo com ela (o que é isso que eu estou sentindo? Estou triste? Estou chorando?) como se ela estivesse apenas embarcada no próprio corpo, da mesma forma que ela embarca na cabine de piloto do EVA. É o princípio (ou quem sabe o reverso?) da música “How to Disappear Completely” do Radiohead. “Eu não estou aqui/ Isso não está acontecendo”.
Asuka Langley é a raiva reprimida, a raiva do não ser visto, do não ser considerado. A revolta que se sente quando tudo ao redor parece não fazer sentido e começa a perder a importância pouco a pouco. Asuka perdeu a mãe quando era pequena, primeiramente por causa do que parece ser um severo adoecimento mental e depois porque ela comete suicídio. Em alguns momentos é sugerido que a mãe de Asuka pretendia... “levá-la junto”. O que vemos é uma menina que quer chamar a atenção a todo custo, seja pela excelência (se esforçando para ser a melhor piloto) seja pelo modo que desconta sua raiva em qualquer coisa que se mova, mas especialmente em Shinji. Uma pessoa que decidiu abrir caminho entre seus traumas, nem que seja na base da porrada. Sua roupa é vermelha, seus gestos são largos e teatrais, sua voz é alta, sempre alta e firme. Até que ela quebra, mas isso é mais adiante.
Misato Kasturagi é a tendência ao escapismo. Misato é talvez a mais ruidosa dentre os personagens principais. Ela bebe constantemente (fato ilustrado pela vasta coleção de latas de cerveja em sua geladeira), é francamente desleixada e a única personagem que claramente tem uma vida sexual ativa, através da qual ela tenta escapar (compreensivelmente) da pressão de ser uma pessoa responsável em um mundo imerso em caos e destruição. Misato aparentemente tenta abrir caminho através dos traumas pela tentativa de entorpecimento e fuga. Com o pouco que eu conheço de Anno, provavelmente ele a colocaria usando umas paradinhas diferenciadas se o resto da galera deixasse. Sua casa é uma bagunça completa antes da chegada de Shinji. Mesmo assim, profissionalmente ela é bastante competente e dedicada, embora sua postura fora da organização seja no mínimo adolescente. O princípio é simples: o que você não vê, não sente, não pode te machucar. O problema é que em algum momento a sujeira embaixo do tapete vai ficar maior que o tapete em si.
Ritsuko Akagi é a tendência a racionalização. Sua conduta é fria e precisa. Como cientista no comando, Ritsuko sabe muita coisa sobre os vários projetos paralelos da NERV, a verdadeira origem dos EVAs, a estranha gênese de Rei, entre outros babados. Com ela, temos a impressão de que tudo tem uma explicação lógica e racional, mas vemos que nem sempre essa explicação é suficiente ou mesmo verdadeira. Costumo pensar nela como o outro lado da moeda da Misato, esta agindo full emoção, enquanto Ristuko tenta fazer o contrário. Tentar racionalizar o caminho para fora da depressão pode te levar até certo ponto, mas não ajuda muito devido ao simples fato de que a vida não faz sentido e que procurá-lo só vai tornar as coisas mais sem sentido ainda.
Gendo Ikari é a tendência ao distanciamento. Na ânsia de provar a autossuficiência, Gendo criou uma carapaça que o protege de ser afetado pelos outros. Isso é demonstrado mesmo na imagem que temos do personagem, cuja famosa pose, com as mãos cruzadas diante do rosto, mostra uma pessoa com várias camadas de proteção. A luva esconde as mãos, as mãos escondem o rosto, os óculos escondem os olhos. Pouco se vê de Gendo na série original e acho isso sintomático. Desde a perda de sua esposa, Yui Ikari, Gendo se retirou do “mundo das pessoas normais” e aparenta estar confortável com isso. Paradoxalmente ele é o que mais se anima com o projeto da “instrumentalização humana”, e não mede esforços para transformar a humanidade em um Mar de Fanta Laranja®, apenas pela possibilidade de poder encontrar sua finada esposa uma vez mais.
Muito se fala sobre o verdadeiro significado de Neon Genesis Evangelion, qual o verdadeiro sentido do final, vídeos com explicações se amontoam pelo YouTube, mas um deles, feito pelo ilustríssimo Quadro em Branco (e que é uma verdadeira joia no quesito construção de texto) me mostrou é que, apesar do anime ter uma quantidade significativa de monstros e robôs gigantes, isso não importa tanto assim.
Sim, entender uma coisinha ou outra de simbolismo cristão, Kabbalah e adjacências talvez te ajude num primeiro momento a não se sentir perdido com os nomes e alguns símbolos espalhados aqui e ali. Mas esse não é o foco da história. Tanto que, mais para o final da série, quando o tempo e a grana encurtaram, a decisão executiva foi de largar os robôs pra lá e entrar em modo full crise existencial. Talvez por isso a última cena da série, que virou meme na dublagem feita pelos patrícios da Guiana Brasileira, seja para tão comovente. Nos é oferecida a ideia de que, uma vez que a nossa perspectiva da vida é cinza, vazia e inútil, tudo o que podemos fazer é tentar mudar essa perspectiva. Principalmente no que se refere a nós mesmos. Pouca coisa além disso pode ser controlada, afinal.
Shinji não é um herói, exatamente. Ele titubeia, decide coisas para depois desistir. Grita como se estivessem operando seu baço com hashis e sem anestesia. Quer fugir daquela enorme responsabilidade que é salvar o mundo. Pilotar o EVA é um problema que ele tenta evitar, chega até a “ir embora”, o que nos dá um ponto de vista que definitivamente é inédito para mim: como ficam os moradores de uma cidade sob o ataque de monstros gigantes. Dentro do bunker, Shinji percebe que ali não era o seu lugar, que ele poderia estar protegendo aquelas pessoas. Mas a que custo?
Uma coisa que Evangelion mostra bem, durante seus vinte e seis episódios, é que não há caminho fácil. Estamos todos lutando batalhas impiedosas e comparar dores diferentes é no mínimo cruel para todos os envolvidos. Ser gentil consigo próprio é a forma mais difícil e mais necessária de gentileza.
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PS. O texto acima foi unicamente baseado na série animada, ignorando deliberadamente todos os filmes que saíram depois dela. Primeiramente porque eu não entendo a necessidade de complemento para uma história que claramente tinha encerrado. Mas, aparentemente a lisergia dos últimos episódios fez com que um grupo bem específico de pessoas ficasse emputecido com Anno, o estúdio e tudo o mais. A ponto de enviar ameaças de morte ao criador de Evangelion e pichar as instalações do estúdio Gainax. Eu abri uma concessão ao filme The End of Evangelion e não sei muito bem o que dizer do que vi. Muito da violência que foi dirigida a Anno está manifestada nesse filme. Há vários momentos em que a realidade “penetra” na animação, na forma de pessoas numa sala de cinema, fragmentos das mensagens ameaçadoras, filmagens da fachada da produtora depois do ataque de vândalos ou cosplayers dos personagens transitando na multidão, o que faz com que a sensação de desconforto seja constante e sensível fisicamente.
Shinji, que antes era apenas hesitante e confuso, agora quase não possui agência. É um boneco, literalmente (e quando eu digo literalmente é literalmente mesmo) arrastado e empurrado de um lado pro outro, quase sem reação. E nos poucos momentos que age, vemos atos de agressão, como a fatídica cena do hospital ou nas duas (sim, duas) vezes em que ele tenta estrangular Asuka. As cenas de ação são belíssimas, explosões grandiosas, lutas épicas, mas para mim o filme foi feito com ódio e transborda ódio por quase todo o tempo. Como se a todo tempo houvesse uma voz por trás das imagens dizendo: não era isso que você queria? Não era isso que você pediu?
Terminei esse filme me sentindo suja e não tenho certeza se em algum momento eu vá ceder e assistir os outros filmes. Ou mesmo a essa nova produção que a Gainax anunciou, curiosamente sem a presença de Hideaki Anno. Faço minhas as palavras de um youtuber desconhecido, cujo tem o título do vídeo que mais representa minha opinião sobre essa “sequência”.
Deixe Evangelion morrer.
Foi uma viagem longa, demorei meses pra arredondar esse texto, por isso sou muito grata a você que chegou aqui, depois desse “amontoado... de... de... um monte de palavras. Por isso deixo aqui as frases finais da série, caso esteja precisando:
Adeus, mãe.
Obrigado, pai.
E a todas as crianças que chegaram até aqui,
Parabéns!











Texto lindo! Evangelion é bom demais. E eu recomendo forte todos os filmes. Os últimos mudam a historia, e são lindos enquanto filmes animados. Vale a pena demais ver, e talvez renda até outro texto
Texto soberbo! A resenha mais adequada sobre os personagens dessa obra que eu já li 👏👏👏