Da tradução
Aquele em que são ditas muitas palavras
Existe uma frase que é velha conhecida dentre aqueles que já se aventuraram pelo pensamento sobre o ato de traduzir um texto, seja ele de que natureza for: traduttore, traditore. O que poderia ser colocado como: o tradutor é um traidor.
Tenho um misto de sentimentos em relação a essa frase, já que reconheço que a tradução é uma atividade que envolve escolhas que nem sempre são fáceis. Na tradução “mais simples”, como de manuais de instrução e adjacências, pode ser que não haja grandes desafios a serem transpostos, mas quando o que se tem em mãos é um texto literário ou algo que lida com conceitos complexos, como é o caso de textos filosóficos, cada escolha pode ter repercussão além do que se pode prever ali, quando se está diante de um trabalho em progresso. Comecei a conceber esse texto quando vi uma charge em uma dessas redes sociais escrotas e me peguei pensando sobre como uma escolha de tradução se desenvolveu em toda uma produção de memes no mínimo curiosos
Não sei quem traduziu Kafka dessa forma, nem se foi a primeira tradução para a língua portuguesa que começava com essas fatídicas palavras, mas a verdade é que “sonhos intranquilos” é uma expressão que chega a ser irresistível em sua capacidade de produzir humor. E é virtualmente anti natural, afinal de contas nunca vi ninguém que se referisse a uma noite povoada de pesadelos como uma noite de “sonhos intranquilos”. Gostaria sinceramente de conversar com a pessoa que fez essa tradução para poder entender porque essa escolha foi feita ao invés de qualquer outra.
Então entrei a devanear sobre uma analogia que pudesse explicar o ofício da tradução, mas que fosse um pouco menos... negativa do que o célebre adágio italiano. Foi então que eu me lembrei do filme O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, que acredito que muitos daqueles que fazem parte da faixa 30+ tenham esbarrado em um ou outro momento da vida. Mas vou me deter apenas a um personagem desse filme e seu curioso trabalho, que é o senhor vizinho da jovem protagonista, um pintor idoso que possui uma condição genética que o impede de sair de casa, já que seus ossos são extremamente frágeis, ossos de vidro. É a mesma condição retratada no personagem de Samuel L. Jackson no filme Corpo Fechado. Por isso ele preenche seus dias no ofício de fazer reproduções de uma obra de Renoir, O Almoço dos Barqueiros, onde podemos ver, no canto superior direito, uma menina bebendo um copo de água.
Nada demais, certo? Não para o pintor, que afirma que há algo no olhar da menina com o copo de água que lhe escapa, por mais que ele tente, o que está em seu olhar é difícil de ser capturado. Existe uma série de jogos que se desenrolam entre Amelie, o pintor e o quadro inacabado, mas para isso que recomendo que vejam o filme e tirem suas próprias conclusões. Aqui vou me ater ao que o senhor estava fazendo. Ele passou a vida reproduzindo um quadro que já existia, mas usando os próprios materiais e a própria capacidade técnica. Muito provavelmente ele nunca será reconhecido como um Renoir ou qualquer outro pintor que ele se dispusesse a reproduzir, mas a tentativa em si carrega uma espécie de coragem
Entenderam aonde quero chegar?
Sabemos que nada substitui a emoção de estar diante de um quadro original, em uma exposição ou em um museu, mas nem todas as pessoas tem a possibilidade de estar diante de um Picasso ou um Van Gogh, assim como não são muitas pessoas que tem a fluência em mais de um idioma para poderem ler algumas obras em suas línguas originais. Assim, tanto a tradução como as reproduções são uma possibilidade de termos acesso a uma obra que não poderíamos se não houvesse essa mediação. É claro que há percalços no caminho, afinal tanto do tradutor quanto do pintor exige-se que haja algum nível de domínio da técnica para o desenvolvimento de seus trabalhos, caso contrário pode acontecer fenômenos como um que eu vi em uma biblioteca escolar e que tive que me segurar muito para não rir descontroladamente. Era uma edição antiga de um livro de Rudyard Kipling, então nomeado “O Livro de Jângal”.
Parei, contemplando aquela obra, me questionando em meus conhecimentos da língua portuguesa, afinal eu jamais havia visto tal palavra. Foi quando, dominada pela curiosidade, eu abri o livro para ver o título original e descobri que era “The Book of Jungle”.
Foi assim que eu tive que sair às pressas da biblioteca para poder rir impunemente.
O serviço de tradução é uma tarefa ingrata porque, quando bem executada, ela supostamente deveria permanecer praticamente invisível. Mas é exatamente aí que reside uma questão importante: a “neutralidade” é uma condição que se aplica a detergentes líquidos ou sabonetes. Todos nós temos nossos vieses e estarmos conscientes deles é que faz com que um trabalho seja melhor executado. Eu tive o prazer de ter em mãos uma edição de Malone Morre de Beckett, traduzido por ninguém menos do que Paulo Leminski. Na época eu já era sensível ao trabalho silencioso do tradutor, tanto que li, com o mesmo entusiasmo que tive com o romance, o posfácio assinado pelo Leminski, em que ele abria uma ou duas janelas para o processo de tradução, jogos de palavras, entre outras luzes.
Falando em tradutores, recentemente tenho me aprofundado em tudo o que posso sobre a jovem Flora Thomson Devaux, a ourives que assina a tradução para o inglês de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Além de ser quase inacreditável que ela seja estadunidense, dado que sua fala não possui o menor resquício de sotaque gringo, é um prazer e uma aula vê-la falar sobre os caminhos que ela trilhou para poder traduzir o que aparentemente era intraduzível: a pena da galhofa e a tinta da melancolia do velho bruxo. E, mesmo que o tema não seja assim tão interessante para todo mundo, vale a pena dar uma olhada no episódio do podcast que ela criou com outras pessoas igualmente extraordinárias, o Rádio Novelo Apresenta em que ela conta um pouco da saga de traduzir um escritor desse calibre. O episódio se chama “Eterno Retorno”.
Ao se reproduzir um quadro, pode-se ter tintas similares, telas similares, pincéis... mas nenhum material será exatamente igual ao que o pintor usou originalmente. E, mesmo que sejam bastante próximos, a mão que esboça, que pincela, que molda as formas não é a mesma. E talvez seja interessante que não seja mesmo, talvez seja possível caminhar um pouquinho nos limites do possível, afinal quando uma referência em um texto seria demasiado obscura para o leitor de outra cultura, porque não adaptá-la para tornar o texto mais acessível? Essa atividade tem nome inclusive, chama-se localização e, até onde meus parcos conhecimentos alcançam, é amplamente utilizada no mundo dos jogos e nas dublagens brasileiras de animação (com exemplos célebres fazendo parte do ecossistema de memes da internet), mas pouco explorada em outros campos onde a tradução se faz necessária.
“Ah, mas a IA virá e o trabalho do tradutor está com os dias contados”, diriam alguns entre nós. Eu, depois de consultar minha bola de cristal imaginária por mais tempo do que seria aconselhável, diria que a resposta mais interessante para essa provocação seria “sim e não”. Sim porque existe toda uma gama de textos que poderiam ser facilmente traduzidos com uma inteligência artificial devidamente alimentada com dados para que se evite alguns tropeços do qual qualquer um de nós estaria passível de cometer. Mas eu ainda acho que haverá um nicho de mercado onde a marca “tradução humana” trará uma certa credibilidade extra ou até mesmo agregará valor ao texto em si.
Provavelmente nenhuma IA escolheria “sonhos intranquilos” como opção. Mas, na minha posição de pessoa completamente leiga no assunto e portanto, uma pessoa que se sente plenamente capaz de emitir uma opinião sobre algo que ignora quase por completo, acho a escolha absolutamente perfeita. Porque ela nos tira de um lugar de palavras conhecidas e confortáveis e acaba nos preparando para o que vem na continuação da frase: o insólito fato de que o jovem Gregor se transformou num inseto.
Eu comecei o texto falando sobre a possível traição do tradutor e sim, quanto mais fui adquirindo conhecimentos na língua inglesa (que é a única além do português na qual eu tenho algum desembaraço) mais eu tive raiva de algumas traduções que eu vi por aí. Mas então eu passei a entender que traduzir muitas vezes é caminhar em um campo emaranhado de escolhas, às vezes tendo que escolher pela menos pior, lutando contra prazos apertados e expectativas altas. Até porque palavras são um pouco mais caprichosas do que pincéis e tinta, como os que Renoir usou para fixar a profundidade do olhar da menina com o copo de água.
Os tradutores fazem o que é possível.
E eu os saúdo por isso.



QUE TEXTO MARAVILHOSOOOOOOO