Cancelamento
Aquele em que se fala muita coisa e se dá muito pitaco
Um vídeo quase amador, mostra um homem elegante, de roupa totalmente preta e cabelos levemente grisalhos. Ele olha através da janela do carro em movimento, onde podemos ver uma fila enorme. Vemos cabelos coloridos, camisetas com estampas de super herois, cosplayers e outros da mesma espécie. O homem olha com ternura para aquelas pessoas e diz, a meia voz “meu povo”. E repete, quase num sussurro, “meu povo”.
O vídeo, antigo, já não pode ser encontrado na plataforma onde se encontrava (pelo menos não o encontrei nas várias buscas que fiz) já que o nome daquele homem atualmente não pode ser mencionado sem uma nota de repulsa e/ou pesar.
Neil Gaiman.
Nenhuma das denúncias recentes envolvendo pessoas públicas e comportamentos reprováveis teve tanto impacto sobre mim quanto aquelas que foram feitas contra ele. Eu sentia que precisava falar sobre esse assunto, elaborá-lo de alguma forma, mas fiquei dando voltas e enrolando tanto quanto se eu quisesse elevar a procrastinação a algum nível olímpico. O fato é que o assunto “cancelamento” é um tanto quanto espinhoso e cada vez que eu tentava tratá-lo eu me sentia diante de um novelo de linha que havia sido impiedosamente atacado por um gato laranjado. E quem tem gatos, ou quem assistiu uma quantidade adequada de vídeos de gatos1, sabe do que eu estou falando: uma dúzia de pontas soltas, todas elas parecendo um caminho possível para o desembaraço e nenhuma que chegue a ser um caminho útil. Então resolvi amarrar uma ponta na outra, fingir que existe uma coesão onde não há e tentar tecer um texto, mesmo que o caos esteja evidente.
Aperte os cintos e respire fundo. A viagem será longa.
Primeiramente a minha maior dificuldade estava na proximidade emocional. Os trabalhos de Neil Gaiman estão na base da minha formação como leitora e a sua forma de construir mundos e personagens sempre me encantou. Parafraseando o melhor programa de jornalismo futebolístico de todos os tempos: sim, eu fui povo daquele rapaz. Comecei então a fazer uma lista mental de artistas que em algum momento se revelaram ser criaturas deploráveis e cheguei à memética conclusão que ninguém está puro. Em maior ou menor grau podemos encontrar manchas nas reputações de muita, muita gente mesmo. O racismo nada velado de Monteiro Lobato e H P Lovecraft; as condutas sexuais questionáveis (no mínimo, estou tentando não ser muito gráfica aqui) de Roman Polanski e Woody Allen; a orgulhosa transfobia de J K Rowling… e eu teria material para continuar a lista por muitas linhas, mas vou deixar com você essa tarefa, comente por favor quem mais poderia figurar nessa amável listinha.
Logo percebi que, se formos erradicar a memória e a existência daqueles que em algum momento de sua trajetória tiveram atitudes condenáveis - algo que está no cerne do conceito de “cancelamento”, segundo a minha interpretação - logo restaria muito pouca gente cuja criação seria possível de ser apreciada. Alguém tem notícia da carreira literária de Madre Teresa de Calcutá?
Não, pera.
Foi quando tentei deslocar meu olhar dos artistas para nós, o público. É possível que os nossos parâmetros estejam em descompasso com a realidade possível? Não estaríamos nós, consumidores, exigindo que aqueles que produzem arte sejam de alguma forma infalíveis? Não estariamos nós projetando imagens ou expectativas em pessoas que não podem ou não querem atendê-las?
Cito mais uma vez o exemplo de Gaiman: não faltam prints de postagens dele, nas várias redes sociais em que era espantosamente ativo. Nelas podíamos ver todo tipo de interação do autor com a sua fanbase, sendo acolhedor com pessoas em evidente sofrimento; incentivando bibliotecários a usar seus livros em leituras públicas; espalhando piadinhas entre aqueles que esperavam por sequências de uma ou outra obra; sendo sarcástico com aqueles que questionavam a agenda woke e derivados. Ao ponto de uma página no finado Facebook cheias desses prints sustentar o título “Neil Gaiman Sendo Maravilhoso De Novo”. Ele fazia questão de ter um posicionamento bastante específico nas redes sociais, se inscrevia em uma série de movimentos considerados progressistas e hoje o que mais aparece para mim como sugestão de conteúdo são criadores oferecendo “conheça X autores para esquecer Neil Gaiman”.
Quero salientar que estou usando o caso dele porque é o exemplo para o qual eu tenho mais informações, por acompanhar a carreira dele… bem… há muito tempo. Eu não me considero exatamente uma fã da obra de Gaiman, principalmente os romances dele me parecem fracos e mal ajustados, ao contrário de seus contos. Gosto do estilo dele em narrativas curtas e, repetindo o que disse acima, acho que a construção de universos que ele desenvolve é algo a ser estudado, assim como a construção do mundo mágico de Harry Potter é uma arquitetura que ainda me deixa espantada. Quase tanto quanto as numerosas postagens no Reddit de pessoas tentando alimentar a teoria de que, na verdade, Rowling escreveu apenas o primeiro livro da franquia, todo o resto teria sido desenvolvido pelo ghostwriter mais confiável de todos os tempos.
O caso de Rowling pra mim é mais fácil de me posicionar porque, além do meu contato com a série ter acontecido na fase adulta existe o fator de que, ao invés de ser detestável com um número definido de pessoas, ela escolheu ter uma conduta criminosa com todo um grupo de indivíduos, que só pelo que são têm sua existência questionada e muitas vezes ameaçada. Isso somado ao fato de que, mesmo depois de anos da publicação do último livro da franquia, ela ainda espalhe declarações arrevesadas sobre detalhes da história que aparentemente fazem bastante sentido na cabeça dela, mas que para os leitores (eu inclusa), transparece apenas uma tentativa desesperada de manter a galinha dos ovos de ouro sexualmente ativa, a ponto de eu me deparar com um vídeo bastante interessante que sugeria que a autoria da saga Harry Potter fosse repassada pela comunidade de fãs, que produzem muito conteúdo expandindo o universo ficcional da obra, dentro e fora das plataformas dedicadas a ficção produzida por fãs, as famigeradas fanfics. Reivindicá-la, tomá-la de assalto para que possa ser apreciada por pessoas cuja saúde mental não se degenerou a ponto de relacionar a licantropia ao HIV, dentre outros absurdos ditos pela autora lá.
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Intermission
Já vi algumas críticas ao fato de Rowling relacionar lobisomens a doenças crônicas como a AIDS, particularmente no que se refere ao personagem Remo Lupin, um pária entre os bruxos e entre os lobisomens. Pobre, enxovalhado, Lupin é um personagem que encara sua “condição” de forma trágica e se envergonha de ser um “monstro”.
Mas o que mais me incomoda quando somos apresentados aos lobisomens no universo mágico potteriano é o fato de que temos a sensação de que a maioria daqueles que se transformaram não se comportam como Lupin, mas sim como Lobo Greyback (ah, a criatividade) que contamina o máximo de pessoas possível, quanto mais jovens, melhor. Como uma horda sanguinária disposta a corromper a pureza de nossas pobres criancinhas para que levem uma vida degenerada…ah, onde eu ouvi isso antes?
End of Intermission
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Fato é que eu tenho mais dúvidas do que respostas para esse tema. Ignorar a existência de autores como H P Lovecraft para mim é fácil, já que não sou tão envolvida assim com a literatura de terror, mas negar a importância da obra dele para o gênero é quase impossível. Monteiro Lobato foi o primeiro autor brasileiro a escrever para o público infantil e esteve na base da formação de leitura de muita gente, quando éramos jovens demais para perceber quão problemático era a construção de personagens como Jeca Tatu e Tia Nastácia, tanto que em seu aniversário atualmente é comemorado o Dia Nacional do Livro Infantil. Harry Potter foi a iniciação literária de toda uma geração, negar a importância da obra na revitalização da literatura infanto juvenil é quase irresponsável.
Mas que fazer quando o autor é, pra citar Dalton Trevisan, um desgracido?
(não olhe para mim, eu sou apenas uma pobre camponesa que tem algumas opiniões, que podem ser consideradas ou descartadas, junto com os tomates e as provas de história)
Eis que eu sugeriria que, primeiramente, repensemos a nossa posição diante dos criadores. Nessa infeliz quadra da História onde nós nos encontramos, com a informação fragmentada em uma variedade de microcosmos de relações (as tão famosas bolhas), os criadores dependem cada vez mais da exposição de sua vida particular para ter alguma relevância nas redes sociais (cada vez menos redes e ainda menos sociais). O resultado disso é que cada vez mais pessoas estejam sendo julgadas e condenadas em tribunais online por pessoas que, não só tem pouquíssimo conhecimento dos “casos que julgam” como se fiam em provas voláteis como a declaração de uma pessoa em um podcast qualquer. E a pena é sempre perpétua, independentemente do delito supostamente cometido2.
Utilizando uma citação do livro Belas Maldições, escrito a quatro mãos por Neil Gaiman e Terry Pratchett, “Pessoas não são fundamentalmente boas ou fundamentalmente más. Pessoas são fundamentalmente pessoas” Somos falíveis, temos defeitos. Não é porque alguém se expressa por qualquer tipo de arte que essa pessoa pode ser alçada à condição de bastião da virtude e da moralidade. Com a luz certa e as palavras escolhidas, nós mesmos podemos ser descritos como alguma espécie de monstro.
Não se trata de passar pano, expressão tão utilizada em contextos diferentes que talvez sua utilização no campo da limpeza doméstica tenha sido seriamente prejudicado. Significa baixar as nossas expectativas, evitar a todo custo que pessoas comuns sejam elevadas ao patamar de semideuses, para depois serem cobradas de uma perfeição que, sinceramente, nenhum de nós está capacitado a ostentar. Se trata de olhar nos olhos de cada artista e perceber o elemento humano ali. Ninguém é infalível, mas quanto mais alto é o pedestal, maior será o barulho da queda.
Segundamente que abandonemos a tentativa infrutífera de ignorar simplesmente a produção artística de alguém por uma determinada conduta e passemos a observá-la conjuntamente a essas informações. O que pode ser criticado, repensado, analisado. Usar o que há de problemático justamente para jogar luz na questão, já que não é ignorando um problema que ele simplesmente deixa de existir.
Finalmente queria lembrar que o fato de uma pessoa ter uma (ou talvez uma série de) atitudes deploráveis não faz com que ela seja eternamente passível de punição. Leis, processos e julgamentos são ferramentas a ser usadas para que crimes sejam devidamente reconhecidos e penas sejam aplicadas. Penas definidas, com princípio, meio e fim. Porque, para mim, não é exatamente necessário que alguém seja punido pela vida toda.
(Com uma ou outra exceção, não é, senhor Jair?)
a resposta para a pergunta “qual é a quantidade adequada de vídeos de gatinhos?” é “SIM”
a autora vem por meio desta afirmar que não possui advogados e/ou assessoria jurídica


